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Mostrando postagens de 2015

Ela é ar

    Com um leve soprar do vento ela chegou. Parecia uma nova sensação, mas era algo mais antigo que os primeiros livros, ou que a arvore mais velha que conhecia. Foi tomando espaço dentro de mim, se expandindo de maneira sutil, me envolvendo com seu aroma de segredo prestes a ser revelado, refrescando minha memória...  Por menos de um segundo ela se revelou, por menos de um segundo me mostrou uma imagem que não pude identificar, por menos de um segundo ela se fez potência universal, por menos de um segundo... E foi embora.  Deixando a impressão de que eu lembraria o que ela trouxe, de que eu a teria comigo por muito mais tempo do que apenas alguns milésimos de segundos. Tentei pegá-la até seu último fio de presença existir, mas ela era muito mais rápida.  E como se nunca tivesse passado por mim, voltei a fazer o que estava fazendo, sem dar muita importância para o que tinha acontecido.  Ela era assim, vinha de tempos em tempos, ameaçava ficar, ma...

Mamãe envelheceu (e eu nem notei)

 -Vai mais devagar, minhas costas doem. - ela falou enquanto subíamos a rua.  Respirei fundo (impaciente) e a olhei.  Foi a primeira vez que a olhei de verdade durante muito tempo.  Quando foi que ela deixou de ter 45 anos?  Seus passos, que antes acompanhavam os meus, hoje eram mais lentos e se arrastavam com certo esforço. Sua pele perdera a consistência, e sua visão exigia uma grande quantidade de energia.  Ela já não era a mesma de dez anos atrás.  E continuava linda.  Linda com suas marcas de sol na pele, com seu cabelo pintado, com suas marcas de felicidade (e de preocupação) no rosto, com toda dedicação para manter a mesma rotina (mesmo com a dificuldade duplicada). Linda! Com toda a história que sua recém chegada velhice marcava.

Jura juradinho?

 Nosso abraço durou quase horas, e ainda assim foi tão pouco.  Perdi as contas de quantas vezes nos despedimos durante esses muitos anos, de quantas vezes estive com meu coração perto do seu, de quantas vezes pensei que um “até logo” fosse a coisa mais dolorosa que conhecia.  -Queria ter passado mais tempo com você – falei enquanto mais uma lágrima deixava sua marca em meu rosto.  -Nós ainda vamos passar bastante tempo juntos.  -Promete?  Ele levantou o dedo mindinho. Eu fiz o mesmo.  E os dedinhos se entrelaçaram jurando o Amanhã.  -Prometo.  E mesmo brincando de donos do futuro, prometendo o que não tínhamos controle, em nosso peito pulsava a certeza de que teríamos um ao outro.  E isso já era o suficiente.

O veu que fabrica pedidos

 Aqueles pontos brilhantes enfeitando o céu noturno dançavam, faceiros, nos chamando para um encontro ao lado do lago.  Andamos até a plataforma de pedras e nos sentamos no chão frio.  -Está vendo todas essas estrelas? - ele sussurrou no meu ouvido  Balancei a cabeça confirmando, e ele continuou:  -Grande parte delas já está morta, e mesmo assim continuam brilhando, continuam lindas.  Sorri.  Por breves momentos cavalguei pela floresta do meu coração, onde vivem os pensamentos mais sinceros. Suspirei e me deitei para observar o espetáculo noturno. Nunca tinha visto o céu tão belo, parecia que ele tinha se arrumado inteiro para exibir seus pequenos tesouros.  Como um ritual, o céu se moveu e liberou uma de suas estrelas. Ela  caia, atravessava a noite sendo o toque final do espetáculo, sendo o maior dos astros.  Eu tinha aquela visão que lembrava meus livros infantis, tinha meus amigos comigo, tinha uma música de fundo (q...

Paralisia do sono

 Acordei no meio da noite, tinha algo errado no meu quarto. Foi quando a escuridão se moveu e me cobriu com desespero.  Notei a presença dele quando tudo começou a formigar.  Os pelos dos meus braços levantaram e uma onda de arrepio e pavor percorreu toda minha extensão, partindo do meio da coluna.  O ar lutava contra cada centímetro de mim, a gravidade ficou mais forte e eu estava sendo esmagada com a pressão. Conseguia sentir meus pulmões gritando em desespero com o pouco espaço que tinham para funcionar, o ar indo embora, o sangue em minhas veias correndo pelo corpo, tentando distribuir vida e o meu coração batendo cada vez mais devagar.  Ele queria me reduzir a nada.  Gritei, mas a criatura sugava cada palavra que saia, sugando meu fôlego, sugando todo vestígio de vida e esperança que eu pudesse ter.  Eu sabia que ele queria minha alma para si, sabia que me visitaria de tempos em tempos. Era a quarta vez só aquele ano e estava send...

Amélia Vox

 Não vou dizer que estava a pessoa mais feliz do mundo com a mudança no meio do ano.  Minha mãe finalmente havia realizado o sonho de construir uma filial de seu banco próxima ao bairro onde cresceu, então decidiu ser vizinha de sua melhor amiga de infância, a Sra. Dav. A parte boa nisso era o filho mais velho da nossa vizinha: o Morcy. Ele era ruivo como a mãe e tinha olhos verdes como o pai, alto, esbelto e usava barba mal feita, o que o fazia parecer mais velho do que seus dezoito anos permitiam. Os Dav tinham aparecido para ajudar na mudança e ficaram até o anoitecer conosco. Enquanto minha mãe e a Sra. Dav preparavam o jantar reparei no filho mais novo dos Dav: Oren. O menininho tinha quatro anos apenas e passara o dia falando com o nada, como se estivesse conversando com alguém. Oren me dava um pouco de medo.  - Ele está falando com o Draco – falou Morcy, sentando-se ao meu lado no sofá.  - Quem é Draco? - perguntei  - O amigo imaginário dele. Nã...

Dei um bis

Dei um bis, ele me deu uma bala Dei um bis, ele me deu um sorriso Dei um bis, ela me deu a gostosa surpresa no olhar Dei um bis, ele me deu um abraço Dei um bis e compartilhamos gratidão 

Morada do Sol

  Caminhei meus preciosos dois quilômetros até a Montanha do Sol, que nada mais era do que um morrinho com apenas uma arvore para os desavisados. Vovó sempre dizia que era importante dar nomes para nossos lugares secretos, dessa maneira só quem conhecesse o verdadeiro título estaria ali. Para as outras pessoas que passassem sem esse conhecimento, seria só mais um lugar.  Sentei embaixo da grande arvore, como de costume. A copa se mexia e peneirava a luz fraca do Sol, formando um belo show de luzes dançantes no chão.  -Está quase na hora, Vó! – falei, apressando vovó que vinha com seus passos já não tão rápidos.  O vento estava me abraçando com o frescor do final de uma tarde quente de verão, deixei-me ser levada pela sensação até a pele se arrepiar de frio. Aquele era o meu lugar favorito no mundo todo.  Ela se sentou fadigada. A mistura de seu sorriso franco com o vento que bagunçava seu cabelo fino lhe dava uma aparência comicamente infantil. ...

O dia que entregamos nosso "juntos"

 -Então, né?  -É.   E assim nos tornamos poucas palavras que dizem muito.  Fiquei procurando um pouco de calor nos seus olhos naquele um segundo que conseguimos manter nos observando. Nada.  -Aqui estão suas coisas.  Segurei aquela sacola que tinha o peso de nossa história, minha bota favorita que estava na sua casa desde aquele dia que corremos na chuva rindo, meus potinhos que um dia guardaram pequenos gestos de carinho, lembranças do primeiro namoro que nos deu uma ideia muito legal para um curta...  As ideias! Fomos uma explosão de ensaios fotográficos, exposições, lugares para conhecer, curtas, “referências”, brincadeiras na cozinha, estudos juntos... tudo isso no papel (eu e meu amor por papel). Fizemos várias coisas, não terminamos outras tantas, e nem começamos mais de metade dos planos. E não reclamo de nada disso. Amava nossas tardes preguiçosas, os dias que nos atrasávamos para os lugares ou ficar o dia todo na cama.  -...

A mesa

 Ele estava do outro lado, a mesa que nos separava parecia ter quilômetros. Ele estava tão inalcançável à meio metro de mim.  A cada palavra o meu coração ficava mais desesperado. Ficar sem falar com ele durante a semana toda tinha me proporcionado muitas crises de ansiedade e mais uma estava prestes a me dominar enquanto o olhava. O responsável pelas minhas melhores férias estava indo. A melhor experiencia que já tive não queria continuar comigo e foi embora levando todas as possibilidades do que poderíamos ser juntos.  Eu queria que ele me abraçasse, que ele assistisse um filme colado em mim mais uma vez, que ele continuasse sendo meu melhor amigo, que ainda fôssemos extremamente próximos.  Ele queria que a conversa fosse tensa, que brigássemos, queria falar dos meus erros, queria me ver longe.  Eu arrependida  Ele magoado  Eu queria juntos  Ele queria separados  O olhar perfurador dele me intimidava e paralisava, ele pa...