Não vou dizer que estava a pessoa mais feliz
do mundo com a mudança no meio do ano. Minha mãe finalmente havia
realizado o sonho de construir uma filial de seu banco próxima ao bairro onde
cresceu, então decidiu ser vizinha de sua melhor amiga de infância, a Sra. Dav.
A parte boa nisso era o filho mais velho da nossa vizinha: o Morcy. Ele era
ruivo como a mãe e tinha olhos verdes como o pai, alto, esbelto e usava barba
mal feita, o que o fazia parecer mais velho do que seus dezoito anos permitiam. Os
Dav tinham aparecido para ajudar na mudança e ficaram até o anoitecer conosco.
Enquanto minha mãe e a Sra. Dav preparavam o jantar reparei no filho mais novo
dos Dav: Oren. O menininho tinha quatro anos apenas e passara o dia falando com
o nada, como se estivesse conversando com alguém. Oren me dava um pouco de
medo.
- Ele está falando com o Draco – falou Morcy, sentando-se ao meu lado no sofá.
- Quem é Draco? - perguntei
- O amigo imaginário dele. Não se preocupe, é
só uma fase. Todo mundo passa por isso.
No mesmo instante, o garoto nos olhou e sorriu.
Pareceu inocente, porém algo ficou inquieto em meu peito. Nossos pais nos
chamaram para o jantar que já estava em cima da mesa. Oren me encarou com seu
rosto angelical e mexeu os lábios me dizendo algo que não pude ouvir, depois
riu e saiu correndo.
O jantar foi rápido para todos, menos para
mim. Tinha sido extremamente desconfortável observar Oren na minha frente
colocando comida em dois pratos, porque queria servir seu amigo imaginário. Na
maior parte do tempo, o garoto ficou falando coisas que eu não conseguia
entender, como se fosse uma outra língua. A única parte que eu entendi foi “Ele
está te observando” quando o garotinho me olhou com seu sorrisinho que não
parecia nenhum pouco afetuoso.
- Amélia, o que foi? – perguntou-me Morcy
quando percebeu que eu estava assustada.
- Seu irmão. Eu acho que ele falou algo
estranho.
- Mas ele não falou nada.
Senti os olhares das pessoas pousarem sobre
mim. Eu tinha certeza que não era imaginação minha. Oren tinha mesmo falado
aquilo.
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