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Dementadora


 -Você não me dá valor - ela sussurrou.
 Não veio resposta, então ela continuou:
 - Os dias passam e você me trata cada vez pior. Achei que fosse algo passageiro, você me disse que seria algo passageiro, me disse que iria se cuidar para não me magoar mais, disse que era apenas estresse acumulado, disse... e disse... e disse. Você é uma pessoa que diz muita coisa.
 O silencio infestava o espaço inteiro fazendo com que ela se sentisse mais sufocada do que já estava. 
 - Toda vez que eu conquisto alguma coisa, qualquer coisa, você faz questão de falar que não é o suficiente, que EU não sou o suficiente. Parece até que faz isso para se divertir, pelo mais puro prazer de ver que estou deixando de sonhar.
 Uma pausa. Uma lágrima. Duas. Um choro fino. Apenas ela:
 - Hoje eu tentei lembrar o movimento que preciso fazer com meu rosto para sorrir. Fiquei com saudades daquela sensação. Qual era o nome mesmo? Eforia? Euforia! Isso. Mas os músculos pareciam atrofiados, e tudo que consegui foi uma boca entreaberta.
 Ela se virou e encarou de frente para continuar:
 - Cada coisinha boa dentro de mim você quer exterminar como se fosse uma doença. Minha vontade é de colar um cartaz pelas ruas procurando pela vida que você tem me roubado. Procurando aquela eu que sabia sorrir e amava cada pequena coisa que a vida dava. Não dá mais para negar essa verdade que fiquei tanto tempo martelando na cabeça: você é a grande praga aqui.
 Ela falou apontando para o espelho.

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