Meu pais estão na
sala conversando sobre a cidade para qual iremos nos mudar no dia seguinte.
Nossa
pousada está arruinada. Já faz quase um ano que não recebemos um hóspede se
quer.
Não achei que sentiria saudades desse
pequeno vilarejo. Quer dizer, quem sentiria saudades de um lugar que não tem nem
mesmo agua todos os dias? Não sei explicar bem, mas eu sinto dentro de mim que
tem algo aqui que não irei encontrar em nenhum outro lugar... Que eu preciso
estar aqui por mais tempo. Isso faz sentido? Ai, como posso continuar com esses
pensamentos bobos de quando ainda era criança? Isso aconteceu há mais de dez anos,
Iori. Supere isso.
Olho para fora de minha janela. São quase
onze horas da noite, a luz do luar ilumina vagamente a rua, o que traz a
sensação de que toda escuridão, que a lua não alcança, tem vida e se move.
Mas isso não me assusta, porque as
estrelas continuam no céu, tão lindas quanto a primeira vez que as vi.
Especialmente Polux, meu melhor amigo.
-Iori? Posso entrar? –
pergunta minha mãe batendo à porta.
-Claro. – respondo enquanto guardo meu pequeno diário na gaveta.
-Claro. – respondo enquanto guardo meu pequeno diário na gaveta.
Ela entra e me
examina em frente da janela. Conheço bem aquele olhar de quem não está
satisfeita com nada do que vê.
-Iori, está na hora
de dormir. Espero que não esteja falando com as estrelas novamente.
E com isso sai do meu
quarto batendo a porta.
Eu nunca entendi o motivo pelo qual ela ficava tão irritada com isso...
“Pare com essas bobagens, Ana. Você está crescida, tem que pensar em outras coisas” ela sempre dizia. Talvez ela estivesse certa. Essas coisas são bobagens. Mesmo assim...
Eu nunca entendi o motivo pelo qual ela ficava tão irritada com isso...
“Pare com essas bobagens, Ana. Você está crescida, tem que pensar em outras coisas” ela sempre dizia. Talvez ela estivesse certa. Essas coisas são bobagens. Mesmo assim...
Abro a janela e me
sento confortavelmente olhando para o alto, é a última vez que verei Polux ali.
Deve ser isso que está me deixando tão angustiada. É por ele que estou sofrendo
por sair do vilarejo.
Fico o observando por um longo tempo, não sei se passaram horas ou minutos. Meu plano era ficar com ele até o amanhecer, até a hora dele ir embora, mas meu corpo pede descanso.
Fico o observando por um longo tempo, não sei se passaram horas ou minutos. Meu plano era ficar com ele até o amanhecer, até a hora dele ir embora, mas meu corpo pede descanso.
-Polux, hoje
completam dez anos desde nosso encontro. Tenho medo de não conseguir te
encontrar na nova cidade. Eu só queria dizer... – minha voz foi ficando cada
vez mais baixa, tinha guardado essa frase por todos esses anos e senti o sono
me vencendo finalmente.
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-Iori? – uma voz
macia me chamava.
Estava em um jardim
que nunca havia visitado antes. Suas cores eram escuras como a noite, em tons
de azul e roxo.
-Iori? – a voz
continuava a me chamar, convidativa.
Enquanto andava em
direção à voz, percebi que estava mais leve. Pisar naquele chão era tão
confortável que pensei estar pisando em travesseiros.
Vários fachos de luz forte começaram a surgir, trazendo
dentro de si pessoas que emanavam um brilho acolhedor e muito quente. Elas
sorriam, conversando em uma língua que não entendia. Quanto mais pessoas
chegavam, mais quente o lugar ficava. Era quase sufocante. Passeei entre elas e
notei com espanto que não usavam roupas.
Um dos fachos veio em minha direção, tão forte quanto a luz do sol, quase me cegando.
Um dos fachos veio em minha direção, tão forte quanto a luz do sol, quase me cegando.
-Iori? – a voz estava
em minha frente agora.
Ele tinha mudado.
Agora estava mais alto que eu e seu rosto parecia mais definido (talvez eu
tivesse me esquecido de como era). A única coisa que continuava intacta era o
sorriso travesso que vestia em seu rosto.
-Eu senti sua falta –
falei com um tom de revolta por ter esperado tanto tempo.
-Estive o tempo todo
com você. – Polux se aproximou e pude sentir seu calor mais forte do que nunca,
tive que me afastar um pouco para não me queimar – Vamos andar, tenho algo para
te dar hoje.
Ele me levou para um ponto
afastado de todos, e foi me contando sobre sua vida, da mesma forma que fizera
10 anos atrás. Tinha sido eleito o próximo sol de um planeta distante, Heludy
era o nome do lugar e ainda estava em formação.
Logo também se mudaria, estava apenas esperando o eleito para segundo sol.
Logo também se mudaria, estava apenas esperando o eleito para segundo sol.
Fiquei realmente feliz por ele. Ser sol
de um planeta é a mais alta honraria que se pode ter, mas minha parte egoísta
queria que ele não mudasse, que continuasse no céu, onde eu pudesse vê-lo.
-Sei o que está
pensando – ele começou – E foi por isso que te trouxe aqui hoje. Quero que
segure esse presente. Sempre que quiser me encontrar, basta usar um de seus
pedidos.
Polux concentrou seu brilho
na palma da mão por alguns segundos, que se transformou em um pequeno embrulho.
Ele colocou no chão e esperamos o presente esfriar.
-Guarde com cuidado,
Iori. E não se esqueça que sempre estarei com você.
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Acordei assustada com o sol tocando meu rosto.
-Polux – foi a
primeira palavra que saiu da minha boca.
Meu coração disparou
ao perceber que tudo tinha sido um sonho, que ele não viera me visitar nem
mesmo em nossa despedida. Talvez tenha sido apenas imaginação minha, desde o
começo.
-Iori? – meu pai
bateu à porta – Venha tomar café conosco.
Levantei da cadeira,
meu corpo doendo com a minha imprudência. Deveria ter ouvido minha mãe e
deitado logo. Passei a mão apalpando meu corpo, tentando amenizar a dor, quando
notei um embrulho em meu bolso.
Sorri ao abri-lo, era
uma pequena caixa com miniestrelas cadentes feitas da luz de Polux, com papéis
especiais feitos para pedidos.
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Na nova cidade, eu
precisei me focar em estudos e trabalho.
Meu pai ficou muito
doente, e faleceu depois de um ano. Minha mãe entrou em depressão, e mal saia
da cama. Sua única alegria era saber que estava me tornando uma mulher
independente. Cuidei dela até seu último suspiro, e então fiquei sozinha no
mundo. A vida não estava sendo amável comigo.
Levei quase 30 anos
para lembrar de Polux novamente. Foi em uma tarde de domingo, quando meus netos
vieram me visitar. A pequena Alice encontrou o embrulho em uma caixa no sótão, e
me trouxe sorrindo como nunca vira.
-O que é isso? – ela perguntou
me olhando com seus jeitinho inteligente no auge de seus sete anos.
Contei toda a história
para ela e quase chorei ao lembrar do meu grande amigo. Alice me abraçou forte
e deixou o embrulho em minha cama antes de ir embora.
Quando o sol se pôs,
e as estrelas começaram a se mostrar, tímidas, no céu da grande cidade, fiquei
procurando Polux, com o coração apertadinho, esperando que ele ainda estivesse
ali.
“Sempre estarei
contigo” ele disse. A frase ficou ecoando em minha mente.
Procurei quase a
noite toda, e acabei adormecendo com meu pedido entre os dedos.
-Eu só queria dizer
que te amo... – foi minha última frase.
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